Um dos grandes conhecedores de plantas do Brasil, também conhecido como o Mestre Samuel.
Revendo meus álbuns de fotografias antigas deparei com uma sequência de fotos feitas no Santuário Ecológico de Miraporanga do saudoso amigo Samuel Jorge de Melo falecido em 09/09/2001, um grande conhecedor de plantas que reuniu em suas coleções espécies de valor inestimável. Por curiosidade resolvi dar uma rápida pesquisadinha na Internet para saber mais sobre o Mestre Samuel e grande foi a minha surpresa ao encontrar apenas uma ocorrência, uma imagem dele juntamente com a apresentadora Ana Maria Braga durante um dos programas da Rede Record onde semanalmente falavam sobre uma determinada planta.

Dentre os grandes conhecedores de plantas que atuaram durante o período anterior ao advento das redes sociais provávelmente o Samuel Jorge de Melo seja de quem menos encontramos informações nos sites de busca sobre suas atividades desenvolvidas até a década de 90. O Mestre Samuel como era chamado carinhosamente pelos seus amigos foi proprietário da empresa Exótica Paisagismo situada no Bairro Butantã em São Paulo onde atendia seus clientes e amigos sempre oferecendo novidades em plantas e também onde desenvolvia seus projetos paisagísticos. No entanto as suas raridades em espécies de plantas eram cultivadas no seu sitio que ele batizou de Santuário Ecológico de Miraporanga próximo da cidade de Suzano. Um lugar incrível com muita vegetação nativa ao redor com muitas espécies de melastomatáceas e até cambuciseiros nativos. Também com muitos animais silvestres, havia até um acordo entre ele e as autoridades ambientais que bichos apreendidos de comerciantes ilegais podiam ser soltos em sua propriedade. Nesse sítio ele recebia um seleto grupo de amigos colecionadores e cultivadores de plantas, todos aficionados por espécies raras quando realizavam trocas das novidades. Eu participei de vários desses encontros muito agradáveis sempre levando alguma espécie que ele ainda não tinha e trazendo outras de sua vasta coleção. O protocolo era sempre o mesmo, nós nos reuníamos em seu escritório, ele servia a todos sua famosa cachaça com Cambuci curtida em barris de madeira com carvão ativado, aos não apreciadores do aguardente servia um delicioso suco de Cambuci gelado. Depois de animada conversa ele nos convidava para um passeio para nos mostrar as novidades recém introduzidas e plantadas em sua coleção. Sua coleção continha espécies muito especiais, uma que fiquei bastante impressionado foi um belíssimo e saudável exemplar da raríssima Metasequoia glyptostroboides conhecida como Sequóia-da-Aurora. Essa árvore era conhecida apenas por registros fósseis de milhões de anos e chegou a ser considerada extinta pela ciência até que exemplares vivos foram descobertos na China na década de 1940.

Metasequoia glyptostroboides
Aprendi muito sobre espécies exóticas ornamentais nessas visitas, foi em um dessses encontros que fiquei sabendo que a melhor espécie de Eucalipto de flores vermelhas para se cultivar aqui no Brasil era o Eucalyptus (Corymbia) ptychocarpa, nós viveiristas insistíamos no Eucalyptus ficifolia que devido à falta das exigências climáticas necessárias nunca florescia de forma abundante. Trouxe várias sementes do Eucalyptus ptychocarpa e passamos a cultivar somente essa espécie, e realmente essa espécie é muito fácil de cultivar e muito ornamental, produz grande quantidade de flores grandes reunidas em cachos densos e duráveis, suas folhas são grandes e de coloração verde-claro e também os frutos quando maduros, após soltarem as sementes podem ser usados em arranjos florais.
Eucalyptus ( Corymbia ) ptychocarpa
Houve um fato engraçado com as nossas trocas de espécies, comuniquei a ele que havíamos produzido um lote da curiosa Árvore-Couve ( Anthocleista grandiflora ) originária da região do Transvaal no Nordete da África do Sul, árvore que quando nova apresenta folhas enormes bem verdes e tenras, boa até para vasos. Ele ficou entusiasmado e me pediu vários exemplares. Na pressa de entregar enviei as mudas com um fretista que cobriu as plantas com uma tela (sombrite), o atrito e o vento que passou entre as frestas fez grande estrago nas folhas, chegaram a ele todas rasgadas com aspecto horrível. O Samuel ficou muito decepcionado, levou um bom tempo para recuperar as plantas.
Anthocleista grandiflora
Seu sitio estava situado entre trechos de mata nativa, nesse local havia até exemplares antigos e enormes de uma das nossas mais importantes espécies de frutíferas da Mata Atlântica, o Cambuci (Campomanesia phaea) dos quais anualmente ele colhia grande quantidade de frutos e batia no liquidificador formando uma pasta que colocava em potinhos plásticos e congelando em seguida, dessa maneira ele tinha polpa durante o ano todo.
Cambuci ( Campomanesia phaea )
Nessa propriedade também havia várias espécies de melastomatáceas nativas, algumas extremamente interessantes como a que ele chamava de Manacá Vermelho ( Tibouchina sp. ) cujas flores também mutabilis ao invés de branco para roxo, mudavam do branco para o vermelho. Outra muito interessante era a qual ele chamava de Manacá Branco (Tibouchina sp.) que produzia flores graúdas brancas com um estreito contorno azul ao redor das pétalas, todas arbóreas com porte considerável. Cheguei a trazer as duas espécies para plantio em Limeira, porém não se adaptaram ao nosso clima muito quente e seco durante o outono/inverno aqui de nossa região e acabamos perdendo os exemplares plantados. Ele também mantinha uma grande colecão de plantas variegadas e consegui com ele algumas preciosidades como o Asparagus densiflorus "Sprengeri" Variegata e também o Mini Espatifilo Variegado (Spathiphyllum wallisii "Petite"Variegata ), espécies que guardo até hoje.
Spathiphyllum wallisii "Petite" Variegata
Sua coleção reunia árvores, arbustos, herbáceas, carnívoras, orquidáceas, frutíferas, aquáticas, poáceas (gramíneas), broméliaceas, grande acervo de aráceas e trepadeiras raras e comuns também ; não se posicionava entre nativas ou exóticas, colecionava de tudo. Também me presenteou com duas trepadeiras muito ornamentais e nativas, ambas da família das bignoniáceas : Cipó Vermelho (Frediricia speciosa) e Cipó Branco Perfumado (Arrabidaea triplinervia) , as quais se adaptaram muito bem no clima de Limeira. Do Cipó Vermelho ele cultivava um exemplar enorme que cobria parte da varanda de sua casa em Miraporanga.
Fredericia speciosa
Normalmente quando visitávamos o Mestre Samuel formávamos um grupinho de amigos de várias cidades : Limeira, Nova Odessa, Campinas e São Paulo, uma turminha muito divertida e com "muita história" prá contar sobre plantas. Cada um levava algumas espéciea que considerava especial para presentearmos ele e marcávamos de nos encontrar lá em Miraporanga. Foram momentos muito agradáveis que ficarão nas nossas memórias para a vida toda e que deixaram vínculos de amizade muito fortes . A seguir postarei algumas fotos desses encontros da turminha, momentos muito divertidos e instrutivos :
Luis Bacher, D. Araci (esposa) e Samuel

Raul Porto, D. Araci, Samuel, Luis Bacher e neto.
Raul Porto, D.Araci, Samuel, Alvimar Cazetto e neto.
Francisco de Assis Leitão de Moraes, Raul Porto, Christian Dierberger, D. Araci, Samuel, Alexandre
Rocha e André Falango.
Ingo Reibel, Eduardo Bacher, André Falango, D. Araci, Samuel e Luis Bacher
Samuel, Christian Dierberger, Luis Bacher , Raul Porto, André Falango e Francisco de Assis Leitão
de Moraes.
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Luis Bacher e Samuel Jorge de Melo.
Finalizando a homenagem ao saudoso amigo estou postando uma belíssima e completa matéria sobre o Mestre Samuel publicada pelos amigos da Revista NATUREZA , a mais importante publicação mensal sobre plantas no Brasil onde tive o prazer de conhecer o Samuel Jorge de Melo pois trabalhamos juntos um longo período como consultores respondendo dúvidas dos leitores :
- Texto e Fotos : Arquivo LUIS BACHER luis.bacher@gmail.com Whatsapp (19) 99143-5351
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